Rimbaud, de corpo e alma

Foi recém-lançado pela Companhia das Letras o ensaio biográfico de Edmund White sobre Rimbaud, A vida dupla de um rebelde. É interessante, nesse livro, a capacidade de White escrever ao mesmo tempo a biografia de Rimbaud e sua própria autobiografia, nos pontos em que ela se “cruza” com a vida do poeta de Uma temporada no Inferno. Um gesto corajoso e ao mesmo tempo revelador da força transformadora da poesia rimbaudiana, capaz de estimular um jovem estudante a se lançar, com maior confiança, à afirmação de sua sexualidade.

White foi entrevistado pelo caderno Ilustrada do jornal A Folha de S. Paulo, no sábado passado, 17 de abril. Reproduzo aqui a entrevista:

FOLHA – O sr. já disse que hoje considera Rimbaud “menos heroico como pessoa, mas talvez ainda mais interessante como escritor”. O que lhe levou a essa avaliação?
EDMUND WHITE
– Comparado ao mítico Rimbaud que eu idolatrava meio século atrás, quando era um adolescente, o Rimbaud que descobri ao escrever sobre ele é um escritor engenhoso, original e iconoclasta que elaborava seus versos de três diferentes modos: romântico no estilo de [Victor] Hugo; simbolista no estilo completamente inovador de “Uma Temporada no Inferno”; e inteiramente original na prosa poética e nas visões de indiferente distopia de “Iluminações”.

FOLHA – Qual a melhor idade para idolatrar Rimbaud? E qual a melhor idade para compreendê-lo?
WHITE
– Acho que existe um Rimbaud para qualquer idade. O rebelde e diabólico agrada aos adolescentes; o grande artista fala ao leitor maduro; a figura trágica atrai homens e mulheres mais velhos.

FOLHA – Rimbaud, tal qual o conhecemos, teria existido sem Verlaine? E haveria Verlaine sem Rimbaud?
WHITE
– Verlaine já existia como um poeta melancólico e altamente musical antes de Rimbaud, mas seu trabalho adquiriu urgência autobiográfica e audácia técnica sob a influência dele. Rimbaud admirava Verlaine antes de conhecer o poeta mais velho, mas, temos de lembrar, já havia escrito “O Barco Ébrio”, um de seus mais importantes poemas, antes de tê-lo encontrado. Entretanto, o atormentado caso de amor entre eles abasteceu a obscura força narrativa de “Uma Temporada no Inferno”.

FOLHA – Como o projeto de “desregramento de todos os sentidos”, com haxixe e absinto, influenciou a trajetória de Rimbaud?
WHITE
– Esse projeto, já familiar à vida e à obra de Baudelaire e de Coleridge, proveu Rimbaud da distância necessária do universo provinciano, burguês e católico da vila de sua mãe [no interior da França] e permitiu a renovação de uma linguagem poética que se tornara enfraquecida com os parnasianos.

FOLHA – Por que o sr. priorizou o Rimbaud adolescente e pouco abordou seus últimos anos, como traficante de armas?
WHITE
– Eu estava interessado em Rimbaud como escritor, não como traficante de armas. Em suas cartas da África ele surge como um materialista ganancioso, indiferente ao sofrimento humano e incapaz de afeição, focado apenas em sua ânsia por dinheiro. Sua autocomiseração também é imensa.

FOLHA – A grande influência que Rimbaud exerce na cultura ocidental deve ser atribuída mais à sua obra poética ou à sua vida aflitiva -se é que é possível separá-los?…
WHITE
– Rimbaud inventou o poema obscuro. Antes dele quase todo poema podia ser decifrado com paciência bastante. Mas a ambiguidade que repousa no coração da poesia de Rimbaud permite que ele seja considerado um visionário, um católico, um socialista, um esteta, um ativista gay e por aí vai. Essa infinitude, junto com a violência e o colorido de sua lenda pessoal, sempre atrairão leitores de todos os tipos.

Se não bastasse, a Folha ainda reproduziu a fotografia revelada no dia 15 de abril, no Salão de Livros Antigos, em Paris, onde Rimbaud aparece, em 1880, num hotel de Áden, no Iêmen, quando o poeta estava com 26 anos. A fotografia foi encontrada num mercado de pulgas parisiense.


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